A LUA DE TABRIZ

Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua. 
De lá desceu e fitou-me.
Como o falcão que arrebata o pássaro,
Essa lua agarrou-me e cruzou o céu.
Quando olhei para mim, já não me vi:
Naquela lua meu corpo se tornara,
Por graça, sutil como a alma.
Viajei então em estado de alma
E nada mais vi senão a lua.
Até que o segredo do saber divino
Me foi por inteiro revelado:
As nove esferas celestes fundiram-se na lua
E o vaso do meu ser dissolveu-se inteiro no mar.
Quando o mar quebrou-se em ondas,
A sabedoria divina lançou sua voz ao longe.
Assim tudo ocorreu, assim tudo foi feito.
Logo o mar inundou-se de espumas,
E cada gota de espuma
Tomou forma e corpo.
Ao receber o chamado do mar,
Cada corpo de espuma se desfez
E tornou-se espírito no oceano.

Sem a majestade de Shams de Tabriz

Não se poderia contemplar a lua.

Nem tornar-se mar.

 

 

 

Ref: CARVALHO, José Jorge de. POEMAS MÍSTICOS/ RUMI – Divan de Shams de
Tabriz. Tradução e Introdução de José Jorge de Carvalho. São Paulo: Attar, 1996.

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